Kirjailija
Camilo Castelo Branco
Kirjat ja teokset yhdessä paikassa: 164 kirjaa, julkaisuja vuosilta 2007-2025, suosituimpien joukossa Luiz de Camões, notas biographicas. Vertaile teosten hintoja ja tarkista saatavuus suomalaisista kirjakaupoista.
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164 kirjaa
Kirjojen julkaisuhaarukka 2007-2025.
"Nunca tanto incentivo a saudades feriu juntamente o cora o das tr s irm s, que iam apartar-se. Ent o foi o recordarem os anos da inf ncia e da juventude. - Quando nosso pai - dizia Eul lia - olhando por todos n s, sentadas a costurar no esteir o, nos dizia: Amai-vos, filhas; saboreai estes curtos dias de prazer sem reveses de l grimas; vede se podeis demorar a luz do rel mpago da bem-aventuran a que alumia a mocidade; segurai-o, filhas, com a inoc ncia e com a ignor ncia da vida, para que mais tarde sejais chamadas a pagar o tributo de l grimas. Cedo ou tarde ser ... Lembras-te, Maria? N o te parece que o est s vendo com o cotovelo encostado cadeira de nossa m e?- Recordemos, recordemos, minhas irm s - dizia Jer nima. - Apertemos o cora o com as afli es, que s vezes a dor diminui assim. O que se fez da nossa vida ... Ainda h dez anos t o venturosas, sem pensar na riqueza, mas tanta gente a dizer-nos que ramos ricas, e n s parece que pergunt vamos umas s outras o que importava ser ricas ... E os amigos de nossa casa nem depois nos apareceram para nos dizerem que est vamos pobres Como o mundo ... Parece que se apagou a luz que v amos no C u da nossa mocidade Eu penso tanto nisto, minhas irm s, e com tamanha saudade de bens para sempre perdidos N o foi a desgra a que me fez negra a vida. Foi ver que uma parte da fam lia se dispersou pelas sepulturas, e a outra vai demandar o destino que Deus lhe reserva. Existe apenas um ente feliz: s tu, Maria S o tantas as recompensas da tua vida cortada de priva es, que serias injusta se argu sses a Provid ncia ..."
Singularidade que enchia de dor quem ouvia cantar divinalmente a pobre louca Dor e espanto daquela formosura de cad ver entoando, ora triste ora alegre, os cantares mon sticos da semana da paix o, ou as seguidilhas voluptuosas de Espanha. As senhoras Cunhas entrajavam-na primorosamente; e ela deixava-se vestir com marm rea quieta o. Ia com elas sala, sentava-se ao piano, erguia-se para sentar-se no canap , e n o respondia a pergunta nenhuma, salvo as da fam lia que ela denominava os seus querubins.E, no concurso de cavalheiros que aflu am a ouvi-la, havia um de apelido de Melo e N poles que se entrou duma paix o invenc vel daquela mulher morta, que tinha uma hora de ressuscitada, quando as teclas do piano a galvanizavam. Este cavalheiro chorava na presen a e na aus ncia dela. Votou a Deus que lhe levantaria um templo, se alvorecesse luz de raz o naquela eterna noite.Como Francisco da Cunha usava chamar-lhe a sua sereia, Joaquina era assim conhecida de fidalgos e humildes em Viseu. Diziam: a SEREIA apareceu ontem na sala; a SEREIA teve um acesso depois que cantou. E o povo, na sua linguagem c ndida e pitoresca, dizia: Vimos hoje a SEREIA numa janela do palacete: olhava para o c u que parecia uma santinha.
A Corja: Continuação do Eusébio Macário
Camilo Castelo Branco
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2013
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A Euf mia Troncha catava-o, fingia estalinhos insecticidas, fazia-lhe com a unha titila es, atritos suaves no casco da coroa, inventava para o nutrir e inflamar car cias e guisados, surpreendia-lhe o apetite com fricass s muito arom ticos, tinha meiguices e candonguices duma donzela que afaga pombinhos entre os seios virginais, decotava o corpete dos vestidos para lhe escaldar o sangue, fazia trejeitos lascivos de gata que se rebola escandecida nos telhados - uma croia velha com muita experi ncia sublinhada. Ao princ pio, o abade agradecia com mocanquices, correspondia-lhe com exuber ncia de abra os, adormentava a sua dor abeberado naquela modorra deliciosa, julgava-se curado das saudades de Fel cia, e, s vezes, repulsando uma ideia funesta, murmurava: Que a leve o Diabo , que a leve o Diabo , e agarrava-se ao pesco o n dio de Euf mia como a uma forte prancha de nau descosida e escalavrada.
A vi va de Domingos Leite e de Jo o da Veiga Cabral j n o tinha alma sens vel s felicidades convencionais desta vida. Recorda es que lhe eram afronta, e saudades atormentadoras - a imagem terr vel do primeiro marido, e a imagem amada e deplorativa do segundo - fechavam-lhe em nuvem negra qualquer aurora de esperan oso contentamento. Nem as car cias de ngela, nem os amor veis rogos de Francisco Mendes a demoveram de seguir o destino que a norteara a Portugal. O ermo, a soledade, a dor sem distra o, morrer, enfim, alheia de amparos que suavizam o transe, era para Maria Isabel uma necessidade do cora o, um sacrif cio volunt rio reden o de suas culpas para com Domingos Leite, e ao seu imenso amor a Jo o da Veiga Cabral. No entanto, se algum desafogo sentia ao cuidar que suas l grimas eram vistas desde o seio de eternidade, com certeza n o eram os olhos do primeiro marido os que lhe davam a recompensa da imola o.
Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado
Camilo Castelo Branco
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2013
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Bas lio Fernandes um sujeito de trinta e sete anos, com senso comum, engra ado a contar hist rias de sua vida, ativo negociante de vinhos no Porto, amigo do seu amigo, e bastante dinheiroso - o que melhor que tudo j dito e por dizer.Seu pai chamou-se Jos Fernandes, por alcunha o Enxertado. Pegou-lhe a alcunha, porque, sendo ele natural de uma aldeia daquele nome em Tr s-os-Montes, quando j era caixeiro, muitas vezes dizia aos seus companheiros de passeata, aos domingos: O Porto boa terra; mas l como o Enxertado ainda n o pus os olhos noutra . A caixeirada, menos sens vel saudade das suas aldeias, ria do mo o, e, por mofa, lhe chamava o Enxertado, alcunha que ele ajuntou ao seu nome com honras de apelido.
A Freira no Subterrâneo
Camilo Castelo Branco; Autor Anónimo Francês
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2013
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O c rio da porteira alumiava a custo aquela escurid o crassa e abafadora. Os t mulos alinhados em andares, chegando do pavimento ao teto, exalavam o f tido da morte. As catacumbas romanas n o poderiam conter maior n mero de ossadas. Quanto ao mais, nem nome, nem algum sinal distintivo. Os mortos que a dormiam bem mortos eram para suas fam lias, que nem sequer lhes podiam guardar m nima recorda o.Um dos jazigos, separado dos outros e de diversa dimens o, continha a m mia de um homem Espet culo hediondo Aquele cad ver estava decapitado Parece que o morto havia sido degolado.Pamza, voltado para a prioresa, apontou-lhe aquele t mulo.- H duzentos anos que este cad ver aqui jaz - disse ela. - A hist ria dele legend ria, e ningu m ma soube contar.Quando o juiz, o comiss rio e o doutor percorriam o subterr neo, disse-lhes Maria Venzyk: - Agora conhecem os senhores este convento tanto como eu.Zolpki pegou na tocha que o doutor levava e segunda vez a perpassou ao longo das paredes.- Nada - murmurava ele. - Nada
Em 6 de maio de 1647 estavam Domingos Leite e Roque da Cunha na Ameixoeira, uma l gua distante de Lisboa, em casa de Bento Rodrigues Taveira, amigo de Diogo Soares.Haviam ambos cortado as barbas antes de entrar em Portugal. Roque trajara-se com a simplicidade de mercador, e falava uma linguagem estrangeirada com mescla de termos holandeses.Nos primeiros dias concorreu Ameixoeira um negociante de sola, chamado Serges, de origem alem , cujo av , em tempo de el-rei D. Manuel, se estabelecera em Lisboa com privil gio de sapateiro. Serges era espi o de Castela em Lisboa, onde, quele tempo, amealhava grossos haveres. Ao tempo que os regicidas sa am de Madrid, era o sagaz mercador avisado por expresso a fim de se avistar com eles em casa do fugitivo partid rio dos Filipes, na Ameixoeira.
Eusébio Macário: História Natural E Social de Uma Família No Tempo DOS Cabrais
Camilo Castelo Branco
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2013
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Publicada a 1a ed. do "Eus bio Mac rio", a reac o cr tica dos realistas-naturalistas, atingidos pela violenta par dia foi tal, que Camilo, alguns meses depois, redige um outro texto, para servir de "Pref cio da Segunda Edi o" (de 1880). Atingindo o c mulo da sua estrat gia parod stica, afirma estranhar a reac o dos adeptos da est tica realista, numa atitude de falsa mod stia e jocosa ingenuidade: "O t mido autor esperava que os artistas n o refugassem a obra tracejada, e afirmassem que eu, nesta decrepitez em que fa o ao estilo o que os meus coevos de juventude fazem ao bigode, n o podia penetrar com olho moderno os processos do naturalismo no romance". O indisfar vel prop sito ridicularizador aumenta ainda consideravelmente, quando Camilo declara que o seu pastiche par dico n o passa de uma brincadeira r pida e de f cil execu o: "Ora a coisa em si era t o f cil que at eu a fiz, e t o vaidoso fiquei do Eus bio Mac rio que o reputo o mais banal, mais oco e mais insignificante romance que ainda alinhavei para as fancarias da literatura de pacotilha. Se eu n o escrevesse de um jacto, e sem intermiss es de reflex o, carpir-me-ia do tempo malbaratado". Para o Camilo trocista, a tempor ria e falsa convers o ao realismo-naturalismo mais n o fora do que um exerc cio de estilo, pois n o esconde as inten es de apoucar e ridicularizar as t cnicas e os processos da nova est tica romanesca, mesmo quando declara exactamente o contr rio: "Cumpre-me declarar que eu n o intentei ridicularizar a escola realista".
Leitores Se h verdade sobre a Terra, o romance que eu tenho a honra de oferecer s vossas horas de desenfado.Se sois como eu, em coisas de romances (que no resto, Deus vos livre, a v s, ou Deus me livre a mim), gostareis de povoar a imagina o de cenas que se viram, que se realizaram, e deixaram de si vest gios, que fazem chorar, e fazem rir. Esta dualidade, que caracteriza todas as coisas deste globo, onde somos inquilinos por merc de Deus, de per si um infal vel sintoma de que o meu romance o nico verdadeiro.Eu sou um homem que sabe tudo e muitas outras coisas. N o espreito a vida do meu pr ximo, nem ando pelos sal es atr s de uma ideia que possa estender-se por um volume de trezentas p ginas, que, depois, vil espi o, venho vender-vos por 480 r is. Isso, nunca.Tudo isto que eu sei, e muito mais que espero saber, -me contado por uma respeit vel senhora, que n o vai ao teatro, nem aos cavalinhos, e que tem necessidades org nicas, mas todas honestas, e, entre muitas, predominada pela necessidade de falar onze horas em cada dez. Desde que tive a ventura de conhec -la, n o invejo a sorte de ningu m, porque vivo debaixo das mesmas telhas com esta boa senhora, e posso satisfazer a mais imperiosa necessidade da minha organiza o, que estar calado. E que n o podemos falar ambos ao mesmo tempo.
O romance escrito em seguimento daquele (O Romance de Um Homem Rico) foi o Amor de Perdi o. Desde menino ouvia eu contar a triste hist ria de meu tio paterno Sim o Ant nio Botelho. Minha tia, irm dele, solicitada por minha curiosidade, estava sempre pronta a repetir o facto aligado sua mocidade. Lembrou-me naturalmente, na cadeia, muitas vezes, meu tio, que ali deveria estar inscrito no livro das entradas no c rcere e no das sa das para o degredo. Folheei os livros desde os de 1800 e achei a not cia com pouca fadiga e alvoro os de contentamento, como se em minha al ada estivesse adornar-lhe a mem ria como recompensa das suas tr gicas e afrontosas dores em vida t o breve. Sabia eu que em casa de minha irm estavam acantoados uns ma os de pap is antigos, tendentes a esclarecer a nebulosa hist ria de meu tio.
Amor de salva o, em muitos casos obscuros, o amor que excrucia e desonra. Ent o que o senso ntimo mostra ao cora o a sua ignom nia e mis ria. A consci ncia regenera-se, e o cora o, reabilitado, avigora-se para o amor impoluto e honroso. Assim que as enseadas serenas est o para al m das vagas montuosas, que l cospem o n ufrago aferrado sua t bua. Sem o impulso da tormenta, o n ufrago pereceria no mar alto. Foi a tempestade que o salvou.Al m de que a felicidade, como hist ria, escreve-se em poucas p ginas: id lio de curto f lego; no sentir intraduz vel da consci ncia que ela encerra epopeias infinitas - enquanto que a desgra a n o demarca balizas experi ncia nem imagina o.Para o amor maldito, duzentas p ginas; para o amor de salva o, as poucas restantes do livro. Volume que descrevesse um amor de bem-aventuran as terrenas seria uma f bula.
O Assassino de Macario
Camilo Castelo Branco
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2013
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